Na rua de terra, eu ficava
Com a bola encostada no pé
Esperando a tarde ir embora
Sem pressa nenhuma
O chão levantava poeira
A cada passo, e a gente continuava
Jogando como se aquilo
Fosse o dia inteiro da vida
Ninguém ali falava em futuro
Só em repetir o mesmo lance
Até ele sair direito
Como se o mundo pudesse esperar
As traves eram duas pedras
No meio da rua, marcadas
De tanto chute que já
Nem lembrava o começo
E quando alguém errava
Ninguém reclamava, só voltava
Pro lugar como se o erro
Também fizesse parte do jogo
Os dias iam passando devagar
Mas ninguém percebia direito
O Sol mudava de lugar
E a gente só mudava de lado
Eu não sabia explicar
Mas cada vez que eu tocava
Na bola parecia que eu entendia
Alguma coisa sem precisar falar
Tinha um silêncio entre a gente
Que não era vazio
Era só o mundo deixando
A gente tentar de novo
É da rua que nasce o Brasil
Onde o jogo nunca vai parar
Cada toque nessa bola
Ensina o mundo a girar
É da rua que nasce o Brasil
Que ninguém quis apostar
Mas quem viveu nesse tempo
Sabe onde quer chegar
Eu vi um menino chamado Ronaldo
Cair com dor e levantar
Como se a dor não mandasse nele
Vi ele voltar pro campo
Como quem esquece o peso
Do próprio corpo, vi Ronaldinho
Sorrindo no meio do jogo
Como se o estádio fosse só um quintal
A bola não obedecia
Ela conversava com ele
Em imagens antigas, eu via
Pelé ainda novo entrando
Em campo sem pedir licença
Ao tempo e o jogo parando
Pra olhar o que ele fazia
Sem esforço, e eu entendi
Que aquilo não era sorte
Era uma maneira diferente
De nascer, o estádio fica quieto
Antes da bola rolar
Não é medo, é espera
Como se o mundo prendesse
A respiração só pra ver
Se o Brasil ainda lembra de quem ele é
É da rua que nasce o Brasil
Agora ninguém vai segurar
Cada passo dentro do campo
É jeito de conquistar
É da rua que nasce o Brasil
Que agora veio mostrar
Quem cresceu nesse chão simples
Veio pra dominar
É o Brasil quando levanta
E faz o mundo escutar
Não é promessa de vitória
É o jogo acontecendo já
E quando a bola toca o chão
Parece que tudo se encaixa
No lugar, como se aquele
Menino da rua nunca tivesse deixado de jogar