Uma Bagagem Que Niguém Consegue Ver

Valdiner Pereira

Lá vai ele com seu casaco gasto e o olhar no chão
Carregando uma bagagem que ninguém consegue ver
Uma calmaria antiga que o tempo desenhou na pele
De tanto caminhar, de tanto ver o dia nascer e morrer
Ele assiste o mundo passar da sua janela
Olho pra ele de longe e vejo o quanto mudamos
Ele é feito de outra época, de ferro, café e suor
Cresceu com o barulho das fábricas e o rádio de pilha americano
E eu sou o fruto desse silêncio que ele guardou pra ser melhor
A história dele não tá nos livros, tá nas marcas das suas mãos
Pai, meu velho companheiro
Seus passos agora são lentos, quase pedindo licença pro chão
Como quem já fez as pazes com o vento
Eu trago o seu sangue correndo no peito
Eu sou a continuação do seu tempo
Ele tem os olhos mansos de quem já viu de tudo
E um corpo cansado que a gravidade insiste em cobrar
Os anos chegaram sem festa, de forma silenciosa e justa
Mas ele não reclama, ele apenas senta pra descansar
Guarda dores antigas num sorriso que insiste em durar

Pai, meu velho companheiro
Seus passos agora são lentos, quase pedindo licença pro chão
Como quem já fez as pazes com o vento
Eu trago o seu sangue correndo no peito
Eu sou a continuação do seu tempo

Eu tenho o amanhã correndo nas minhas veias
E ele carrega o peso de tudo que já viveu
Duas margens do mesmo rio que se encontram no abraço
O menino que eu fui, e o homem que ele me deu

Pai, meu velho companheiro
Seus passos agora são lentos, quase pedindo licença pro chão
Como quem já fez as pazes com o vento
Eu trago o seu sangue correndo no peito
Eu sou a continuação do seu tempo

Eu sou o seu silêncio
O seu tempo
Fica em paz, meu velho


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