Eu Só Queria Ter Tido a Coragem

Valdiner Pereira

Toda geração que chega aponta o dedo pro passado
E joga os seus próprios erros na porta anterior
Sei que carrego as amarras do que meu pai segurava
Refém das esperanças dele, do seu medo e do seu amor
Eu só queria ter tido a coragem de quebrar esse muro
Enquanto o tempo dele ainda era o meu presente

Ficamos com bilhetes rasgados, rascunhos de pensamentos
E tantas conversas cortadas bem no meio do refrão
Você defendia a sua tese, ele jurava que tinha sentido
Falamos línguas diferentes, cada um na sua prisão
Armados até os dentes, fingindo que não doía

Fale bem alto e claro, tire esse peso do peito
Não espere o silêncio da terra pra se arrepender
Vai ser tarde demais quando os olhos se fecharem
Pra admitir que passamos a vida inteira sem nos ver
Sem olhar no olho, sem se reconhecer

Abrimos trincheiras estúpidas entre o agora e o ontem
E sacrificamos o futuro em nome do nosso orgulho
A amargura é a única coisa que sobra desse confronto
Não ligue pras velhas certezas que se perderam no entulho
Sempre dá pra mudar a perspectiva se a gente aceitar ceder

Fale bem alto e claro, tire esse peso do peito
Não espere o silêncio da terra pra se arrepender
Vai ser tarde demais quando os olhos se fecharem
Pra admitir que passamos a vida inteira sem nos ver
Sem olhar no olho, sem se reconhecer

Eu não estava na sala naquela manhã fria em que ele partiu
Não segurei a sua mão, não disse o que tinha pra dizer
Mas eu chamei pelo nome dele no fim daquele outono
E eu juro que ouvi o seu eco, eu vi o seu rosto renascer
Nas lágrimas do meu próprio filho, ele ainda tá aqui

Fale bem alto e claro, tire esse peso do peito
Não espere o silêncio da terra pra se arrepender
Vai ser tarde demais quando os olhos se fecharem
Pra admitir que passamos a vida inteira sem nos ver
Sem olhar no olho, sem se reconhecer

Eu devia ter falado antes
O eco ainda vive no meu menino
Diga hoje


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