Quem Me Consola é Deus

Newton Jayme

A manhã chegou com gosto de ferrugem
No fundo do copo que eu nem lavei
O tempo mastiga lento a minha coragem
E lança silêncio no que eu já sonhei

Tem boleto dançando sobre a mesa
Como se fosse um samba que eu não quis tocar
E o amor, esse bicho sem coleira
Dormiu na varanda, não quis mais entrar

A cidade me enfeita com seus ruídos
Me empresta pressa, me cobra um papel
Eu caminho cambaleando entre compromissos
E esqueço o nome daquilo que é fiel

Mas tem um resto de luz no meu peito
Que nem o cansaço consegue apagar
É tipo um sussurro no meio do caos
Me lembrando baixo: Vai passar, vai passar

Quando o mundo pesa mais
Que o meu ombro aguenta
E o espelho evita me encarar

Quem me consola é Deus
Na dobra invisível do dia comum
No grito calado que ninguém mais ouviu
Na lágrima seca que insiste em cair

Quem me consola é Deus
Quando o amor falha e o corpo desiste
É mão sem forma, mas firme em mim
É chão que surge onde não existe

Já bebi da fonte da esperança
E ela tinha gosto de ilusão quebrada
Já contei estrelas pra ver se esquecia
Que a vida cobra até pela madrugada

E o afeto, às vezes, vem com espinho
Abraça forte, mas deixa um sinal
Mesmo assim, eu planto na desordem
Um jardim teimoso contra o temporal

Se eu me perco é porque ainda caminho
Se eu me calo é pra me escutar
Tem um Deus que escreve reto em desalinho
Mesmo quando eu só sei rabiscar

Quem me consola é Deus
No vão entre o sim e o que não aconteceu
No verso errado que insiste em viver
Na fé que dança sem me prometer

Quem me consola é Deus
Quando eu me acho pequeno demais
É voz sem som dizendo: Eu tô aqui
E o vazio já não me desfaz

E, se a vida é um samba sem ensaio
Eu canto assim, meio fora do tom
Porque, no fundo, em cada desmaio
Tem um Deus me afinando por dentro do som


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