Meu irmão no Lurdinha era quase um vigário
Cumprimentava a santa no santuário
Bom dia, Nossa Senhora
Com fé e ternura e logo depois
Tocava a loucura
Mestre do balão, rei da fogueira
Fazia pipa com alma guerreira
Carrinho de rolimã, era bala na agulha
E ele pilotava com riso em bolsão
É santo travesso, é arte ligeira
Com sucata e corda, faz brincadeira
Ajuda os outros com alma inteira
Depois imita todo mundo na ladeira
É tipo pica-pau
Em forma de irmão
Mistura de anjo com lampião
E transforma lixo em cena encantada
Com cola, prego e piada improvisada
Se a tristeza chega, ele desconcerta
Faz graça com tudo, até com este poeta
Fazia balão com jornal da vovó
Acendia fogueira com alma de artista
Carrinho de rolimã, era sua invenção
Descia voando feliz, sem freio de mão
Já fez a turma rir num velório
E chorou de rir no próprio auditório
Gozador nato, sem manual
Debocha da vida, sem fazer o mal
É santo travesso, é arte ligeira
Com riso nos olhos, e mão faceira
Ajuda a velhinha, engana a tristeza
Depois tira sarro da própria beleza
É tipo pica-pau
Em carne e humor
De rolimã, fogueira e amor
Meu irmão na escola fazia questão
De dar bom dia à santa com a mão
Com a outra, escondia um estilingue no bolso
Um fósforo pra fazer arte
Curtia um balão, pipa no ar
Fazia fogueira só pra observar
O fogo dançando, feito aquarela
E ele rindo com alma de novela
É santo travesso, é arte ligeira
Com riso nos olhos, e mão faceira
Ajuda a velhinha, engana a tristeza
Depois tira sarro da própria beleza
É tipo pica-pau
Em carne e humor
De rolimã, foguete e amor
Meu irmão é o pica-pau disfarçado
Metade anjo, metade danado
Faz da sucata uma arte ligeira
Constrói fantasia com lata e madeira
Com prego e um sonho na mão
Ele move o mundo e o carrinho no chão
Faz o rolimã com roda de feira
Pinta o céu com fita de bandeira
E quando alguém precisa de um abraço
É ele o primeiro a chegar no pedaço
Entre prece e traquinagem
Entre cola quente e coragem
Ele vê beleza onde ninguém vê
E ainda dá risada na hora
Do porquê meu irmão é o pica-pau encantado
Desenha esperança num muro rachado
Faz da tristeza um papel de presente
E da infância um quadro permanente
É santo travesso, é arte ligeira
Com sucata e corda, faz brincadeira
Ajuda os outros com alma inteira
Depois imita todo mundo na ladeira
Tipo pica-pau
Em forma de irmão
Mistura de anjo com lampião
Meu irmão artista de mão cheia
Com alma de santo e cabeça de ideia
Se a vida é difícil ele faz um refrão
De papel, de brinquedo, de puro coração
Se Deus tiver mesmo de bom humor
Vai reservar um lugar pra meu irmão
Lá entre a Lurdinha e um anjo bem humorado
O céu ele bagunça com seu riso debochado
Mano, que bom que você existe
É santo travesso, é arte ligeira
Com sucata e corda, faz brincadeira
Ajuda os outros com alma inteira
Depois imita todo mundo na ladeira
Tipo pica-pau
Em forma de irmão
Mistura de anjo com lampião