Estou triste
Não dessa dor que se alardeia
Nem da tristeza que se inventa
É da que entra, sem dar bandeira
E por dentro se aposenta
É um silêncio que me veste
Uma ausência que não grita
A alma às vezes só se empresta
Ao vazio que habita
A voz emudece
O gesto vacila
O corpo se torna cais
E o riso que ainda oscila
Já não volta nunca mais
Me pergunto no espelho da porta
Se fui eu que me deixei ficar
Se fui eu que bati a porta
Ou se a vida quis fechar
Mas prossigo com o ar que não me cabe
Com um barco velho antigo
Que navega porque sabe que não há
Por onde ir
Velejo sem mapa, nem porto, sem promessa de chegar
E o casco deste corpo insiste em velejar