Das ilhas onde o fogo arde
E a terra ensina a sofrer
Trouxe o mar minha saudade
Sem ter sítio onde morrer
O capelo ficou para trás
Com seu vulcão a bramar
Mas foi destino, não foi paz
Que me fez atravessar
No porão da nau escura
Rezei sem voz e sem pão
Vi a morte na amargura
Se arrastando pelo chão
Ó destino traiçoeiro
Que não cansa de ferir
Dei-te tudo por inteiro
E roubaste o meu porvir
No porto dos dorneles
Ergui casa de ilusão
Entre o barro e os batéis
Plantei trigo, perdi chão
Meu filho, luz tardia
Meu amparo, meu viver
Foi-se numa noite fria
Sem poder se defender
Cinco golpes, diz o povo
Mas eu conto muito mais
Cada dia é um golpe novo
As feridas são iguais
Ó destino traiçoeiro
Que não cansa de ferir
Dei-te tudo por inteiro
E roubaste o meu porvir
Nas terras de sesmaria
O mal criou raiz
Com traição e aleivosia
Sangrou o meu petiz
Ficou Deus por testemunha
A noite por companheira
Pois justiça nunca vinha
Pra quem chora na ribeira
Ó destino traiçoeiro
Já não tenho o que sentir
Leva tudo, se és verdadeiro
Mas devolve o que perdi
Se nossa senhora ouvir
Esta dor que não tem fim
Guarde o antónio agostinho
E tenha piedade de mim