Arder de Novo

Humberto Araújo

Agora a vida só se leva a ferro e soco
Agora o jogo só desata a murro e faca
Agora o cara a cara é desrazão
Até que já não reste um olho
Até que a boca já nem guarde cacos pra risada

À vera o escuro desce bruto num sufoco
Um bote surdo feito enrosco de emboscada
Na hora em que a estiagem greta o chão
O sonho verte em sumidouro
A trupe lava a cara e cata os trastes pra recomeçar

Em frente a serpentear
Mambembe caravana a estrada
Estranha e inusitada procissão
Cada morro mais um morro pra derrotar
Atrás de terra chã que a lona abrace
E o circo remendado coração
Vai poder armar de novo
Louco
Picadeiro doido
Fogo
Vai arder de novo

Um dia o mundo esgota o gosto pelo turvo
Quiçá por luz ou mero efeito do cansaço
Charada que não pede explicação
A fúria cega inveja o sonho
A força bruta cede aos arlequins e suas graças

E num segundo a chuva entorne todo o escuro
Tornando tudo imenso açude desbordado
Um mar assim repleto de tesão
Até que já não reste sombra
Ganância, medo nem vontade de voltar atrás

Em frente a serpentear
Mambembe caravana pela estrada
Estranha e inusitada procissão
Cada morro mais um morro pra derrotar
Atrás de terra chã que a lona abrace
E o circo remendado coração
Vai poder armar de novo
Louco
Picadeiro doido
Fogo
Vai arder de novo


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