Nos contrafortes do Kailasa sob penedias hibernais
Ascendiam estrangeiros de academias ocidentais
Etnólogos, zoólogos, doutores da cognição
Convencidos de que o enigma cederia à dedução
Num mosteiro semioculto pelas brumas da altitude
Um asceta lhes falou com litúrgica gravidade
Há um ente nestes píncaros sem origem conhecida
Cuja vigília antecede a cronologia da vida
Sobre a crosta das geleiras sob a alvura sideral
Encontraram incisões de extensão descomunal
Nem pantera-das-neves nem plantígrado ancestral
Produziriam semelhante assinatura espectral
Quando a noite verteu prata sobre a ossatura dos montes
Ressoou pelos abismos um clamor de mastodontes
Nem ribombo nem tormenta nem vulcânica explosão
Parecia a cordilheira colapsando na amplidão
Na oitava jornada alpina extinguiram-se os fanais
E um terror paleozóico dominou homens e animais
Foi então que divisaram sobre um alcantil glacial
Uma massa antropoide contra a névoa sepulcral
Yeti das neves primevas
Hierofante sepulcral
Teu semblante nas montanhas
Humilha o intelectual
E quem contempla teu vulto
Sob constelações austrais
Desce exilado da espécie
Pelos ermos glaciais
Deflagraram seus projéteis contra o vulto coligido
Mas os tiros ressoavam sem efeito percebido
A criatura prosseguia pelas cristas do degelo
Com a solenidade antiga dos monarcas do flagelo
Então veio das ravinas um estrépito plutoniano
Mil penedos despencando sobre o agrupamento humano
Tendas, mulas e carregos dissolvidos na amplidão
Sob a fúria mineral daquela convulsão
Só desceu um sobrevivente pelas trilhas do degelo
Com os cabelos emblanquecidos e os olhos sem consolo
Nunca mais falou coerente desde a visão ancestral
Pois dizia ter fitado algo pré-civilizacional
Yeti das neves primevas
Hierofante sepulcral
Teu semblante nas montanhas
Humilha o intelectual
E quem contempla teu vulto
Sob constelações austrais
Desce exilado da espécie
Pelos ermos glaciais