Pombagira das Sete Encruzilhadas

Astrikos Katoikos

Na zona humilde de uma cidadezinha de agricultura e cafezal
Contavam dela à boca empolgada mas com respeito quase ritual
Diziam vir nas madrugadas quando cessava o burburinho
Vestida de seda mourisca, percorrendo antigo caminho

Sabia nomes esquecidos, inventários, testamentos
Amores postos em gavetas, promessas levadas pelos ventos

Quem lhe encontrava numa encruzilhada
Levava assunto pra semana atribulada

Pomba Gira das Sete Encruzilhadas
Dona das rotas embaralhadas
Rainha das ruas empedradas
Das confidências acorrentadas
Seu perfume corre pelos telhados
Pelos armazéns abandonados
Pelos quintais e sobrados
De tantos sonhos desencontrados

Numa pensão de comerciantes, junto à estátua do bom cidadão
Ela ouviu um caminhoneiro lastimar desilusão
Tomou café de rapadura, provou doce de araçá
E falou coisas tão exatas que o homem voltou até a sonhar

Depois seguiu pela Avenida das Figueiras Amoráveis
Deixando dúvidas antigas cada vez mais distantes e frágeis

Quando seus brincos reluziam
Até as mágoas empalideciam

Pomba Gira das Sete Encruzilhadas
Dona das rotas embaralhadas
Rainha das ruas empedradas
Das confidências acorrentadas
Seu perfume corre pelos telhados
Pelos armazéns abandonados
Pelos quintais e sobrados
De tantos sonhos desencontrados

Conhecia os mascates sírios, os tropeiros de Minas Gerais
Os donos de tipografias, os capitães dos cais
Falava de astronomia, de botânica e navegação
Como uma doutora antiga escrevendo constelação

E quando surgia a aurora sobre a cidade provincial
Restava apenas sua rosa num parapeito colonial

Pomba Gira das Sete Encruzilhadas
Senhora das noites enluaradas
Guardiã das causas delicadas
Das esperanças ressuscitadas

Eooô, eooô, eooô, pelas vielas da madrugada, eooô, eooô, eooô

Pomba Gira das Sete Encruzilhadas


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