Lá nos fundos do Amazonas sob a Lua de aluvião
Barqueiros cochicham velhas histórias de assombração
Dizem que nas madrugadas quando a bruma cobre o rio
Surge um vulto encantadiço assoviando brando e frio
Velho Bento me contava recostado no barrancal
Tenha medo desse moço de chapéu alvo e fatal
Pois o boto toma forma dum rapaz bonito e são
Mas antes do romper da aurora torna às furnas do fundão
Ô boto das águas fundas
Encantado do igarapé
Leva moça na neblina
Sem deixar sombra sequer
Ô boto de olho antigo
Feiticeiro do luar
Quando assovia no rio
Toda vila vai rezar
Veio a festa de São Pedro com rabeca e lampião
Moças rodando em terreiros sob a noite daquele cantão
Foi então que apareceu um sujeito todo elegante
Linho branco sobre o corpo e ouro no pescoço com diamante
As donzelas se encantaram com seu riso e seu palavreado
Mas os velhos se benzendo evitavam seu contato
Até os cães da vila inteira principiaram a uivar
Mesmo assim aquele estranho prosseguia sorridente sem parar
Ô boto das águas fundas
Encantado do igarapé
Leva moça na neblina
Sem deixar sombra sequer
Ô boto de olho antigo
Feiticeiro do luar
Quando assovia no rio
Toda vila vai rezar
Ooh, ooh, ooh, ooh, ooh, ooh, ooh, ooh
Moça Ritinha foi com ele pela borda do igarapé
Rindo baixo na cerração sem saber no que dá fé
Veio um trovão desmontando o céu e o rio começou girar
E o rapaz de linho branco mergulhou sem regressar
Só acharam sua fita derivando na correnteza
Enquanto a Lua entornava palidez sobre a natureza
Desde aquela madrugada quando a bruma vem subir
Todo mundo fecha a porta se um assovio
Vem das funduras do porvir
Ô boto das águas fundas
Encantado do igarapé
Leva moça na neblina
Sem deixar sombra sequer
Ô boto de olho antigo
Feiticeiro do luar
Quando assovia no rio
Toda vila vai rezar