O Corpo Seco

Astrikos Katoikos

Levaram o corpo depois da capela
Passando o pasto e a cerca velha
Ninguém chorou, ninguém falou
Vi um sujeito que só fez o sinal da cruz e se afastou

Abriram a cova perto do barranco
Onde a raiz bebia o barro branco
Mas três dias depois, pra espanto geral
A terra devolveu aquela coisa pro quintal

Nenhum santo quis escutar
Nenhum demônio quis levar
Até a madrugada saiu do lugar

Rejeitado pelo céu
Rejeitado pelo fogo
Rejeitado pelas vozes
Que chamavam seu nome há pouco
A cova não consegue guardar
A noite não consegue esconder
E a estrada de chão ainda lembra
Por onde ele passou pra morrer
Rejeitado pela terra
E sem conseguir desaparecer

Seu João jurava pela Bíblia da sala
Que a mula estourou a corrente da báia
Dona Maria trancava o portão
Quando ouvia aqueles passos no chão

A corda do poço partiu de repente
As galinhas sumiram do terreiro da frente
E cães que latiam pra qualquer ladrão
Ficavam quietos perto do ribeirão

Nenhuma reza conseguiu mudar
Nenhum padre conseguiu mandar
De volta aquela coisa pro seu lugar

Rejeitado pelo Céu
Rejeitado pelo fogo
Rejeitado pelas vozes
Que chamavam seu nome há pouco
A cova não consegue guardar
A noite não consegue esconder
E a estrada de chão ainda lembra
Por onde ele passou pra morrer
Rejeitado pela terra
E sem conseguir desaparecer

Os mais velhos diziam
Ofenda sua mãe
Erga a mão contra seu pai
Negue comida a quem tem fome
Roube o que não é seu
A terra recebe o bêbado
A terra recebe o ladrão
A terra recebe o assassino
Mas não recebeu esse homem, não

Um corpo sêco
Um amaldiçoado
Jamais esquecido
Um cadáver ressecado

Rejeitado pela vida
Rejeitado pela morte
Ainda anda pelas estradas
Quando a madrugada impõe sua sorte
A cova não consegue guardar
Os anos não conseguem destruir
E quem escuta aqueles passos
Faz de tudo pra logo fugir
Rejeitado pela terra
E sem conseguir morrer

Os insetos se calam
O pasto fica parado
A porteira bate sozinha
O vento muda de lado

Rejeitado pela vida
Rejeitado pela morte
Ainda anda pelas estradas
Quando a madrugada impõe sua sorte
A cova não consegue guardar
Os anos não conseguem destruir
E quem escuta aqueles passos
Faz de tudo pra logo fugir
Rejeitado pela terra
E sem conseguir morrer


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