Quando o relógio sangrou meia-noite
O galo cantou quebrando o açoite do tempo
O frio desceu pela pele da rua
A Lua acendeu seu espelho no vento
O perfume antigo tomou o ar
Cheiro de flor que só nasce no escuro
Sombra comprida riscando o chão
Força ancestral abrindo o muro
Na boca um gosto doce e amargo
Passos lentos, quadril soberano
Riso baixo, cortante e quente
Um silêncio que fala humano
Ela vem sem pedir licença
No breu onde a fé quase cede
Dama da noite surge inteira
Pra cuidar de quem pensou que não consegue
Laroyê, senhora da madrugada
Laroyê, teu nome corta estrada
Laroyê, pombagira do açoite
Saravá, minha Dama Da Noite
A vida pesa pra quem nasce marcado
Destino escrito antes de o choro sair
Arrancam do lar
Roubam o colo
Dizem que a rua é lugar de existir
Forças sombrias puxam os pés
Sussurram queda, cansaço e fim
Tiram o brilho
Drenam a vontade
Quando viver parece não ser pra mim
Mas quando tudo ameaça ruir
Quando o amanhã não quer nascer
A guardiã cruza os planos do medo
Chega firme pra proteger
Dama Da Noite, mulher de poder
Emponderada sem precisar falar
No olhar verdades não ditas
Na presença o mundo aprende a parar
Onde seus pés tocam o chão
A noite se curva em respeito
Por que alí não pisa só uma mulher
Pisa um reino inteiro em seu peito
Laroyê, senhora da madrugada
Laroyê, tua filha é chamada
Laroyê, pombagira do açoite
Saravá, minha Dama Da Noite
Ela encara a filha
Mulher forjada na dor
Coluna ereta, mas o coração em cacos
Mente cheia de sonhos quebrados
Pedras guardadas em silêncios opacos
Forte no mundo
Frágil por dentro
Como um bebê pedindo abrigo
A Dama abre os braços invisíveis
Chega filha
Eu estou contigo
Toma a dor da filha na mão
E sopra no vento o choro calado
Transforma lágrima em fumaça
E o peso em aprendizado
Abre os olhos da moça cansada
Mostra o reino que poucos veem
Almas perdidas em si mesmas
Gente viva que não vive bem
Filha, tua missão não é pequena
Vai além do teu querer
Vai além até do meu querer
É dar aquilo que te faltou receber
Dar amor a quem nunca teve
Dar colo a quem só conheceu o chão
Dar direção a quem anda cego
Ser luz onde só havia escuridão
Tudo o que te foi negado um dia
Tudo o que arrancaram de ti
Será remédio nas tuas mãos
Pra quem te procurar aqui
Jesus veio ao mundo com amor no peito
E recebeu pedra, espinho e cruz
Esse é o preço de quem carrega uma espada feita de luz
Tua caminhada será longa
Teu trabalho não tem fim
Ensinar o perdão aos feridos
Mesmo aqueles que te feriram assim
Tu serás punhal que rasga o peito
Mas não pra matar, pra curar
Vai abrir espaço onde mora a dor
E no lugar vai plantar amar
A menina chorou
Tremeu por dentro
Sombras rodavam na mente em confusão
Mas entendeu que não era em vão
Que sua vida era missão
Mudou o jeito
Mudou o espelho
Aceitou ser farol e não muro
Ser reflexo de quem se encontra
Mesmo andando em caminhos duros
As duas se alinham na força do chão
Bebem juntas selando a verdade
Riem das próprias quedas antigas
Transformando dor em coragem
Firmam o pacto na gira do tempo
Entre risos, fumaça e fé
Uma pela outra até o fim
Enquanto o mundo ainda é
Laroyê, senhora da madrugada
Laroyê, tua filha te chama
Laroyê, pombagira do açoite
Saravá minha Dama da Noite
Quando a noite cai pesada
E alguém pensar em desistir
Ela vem com perfume e riso baixo
Pra lembrar: Ainda dá pra seguir
Laroyê