A noite vestia Lua cheia
Como quem observa sem julgar
O calor se despedia do dia
E o frio começava a ensinar
As ruas vazias guardavam histórias
Que ninguém ousava contar
Mas no fundo do silêncio escuro
Havia vozes querendo falar
Cigarras rasgavam o tempo
Anunciando o verão que viria
Enquanto o povo girava em prece
Misturando fé, medo e poesia
Entre vivos cansados da dor
E mortos pedindo passagem
Uma criança seguia a mãe
Sem saber o peso da viagem
A casa vestia luto antigo
Um nome faltava à mesa do pão
O irmão mais velho virou saudade
Numa tragédia sem explicação
O pai se perdeu no cansaço
Desaprendeu a sonhar
A mãe buscava o filho no invisível
Onde os olhos não podem alcançar
E o menino só sentia o mundo
Pesado demais para entender
Aprendendo cedo que a vida
Nem sempre explica o porquê
Chega suave e serena
Toma conta de mim
Venha leve, venha plena
Ensina-me o fim
Saúdo a raiz
Saúdo a flor
Mistério antigo, feminino e no amor
Saravá, pombagira da Lua grande
Saravá, dama da noite
Perfume que expande
O menino não quis ver a gira
O medo falava mais alto que a fé
O invisível parecia grande
Demais para quem ainda é
Ficou do lado de fora, esperando
Com o pai calado, a orar
Enquanto o tempo escorria lento
E a mãe demorava a voltar
Então, o ar mudou de repente
Como se o mundo prendesse o ar
O grilo calou
A cigarra sumiu
Algo começou a chegar
Não era som, não era palavra
Era presença sem forma ou rosto
Um perfume tomou a rua
Entre o sagrado e o oculto
Mistério, intuição e aviso
Algo que não sabia nomear
Flor e entidade no mesmo sopro
Sem saber se devia ficar
Naquele instante nasceu a memória
Que o tempo não conseguiu levar
Toda vez que o perfume surgia
Aquela noite voltava a pulsar
Chega suave e serena
Toma conta de mim
Venha leve, venha plena
Ensina-me o fim
Saúdo a raiz
Saúdo a flor
Mistério antigo, feminino, amor
Saravá, pombagira da Lua grande
Saravá, dama da noite
Perfume que expande
A vida girou como gira
Sem pedir licença ou sinal
O menino virou homem
Aprendeu a cair e levantar
Levou perguntas nos ombros
E o coração pedindo chão
Foi ao terreiro buscar firmeza
E escutar a própria intuição
Na gira, ela chegou sem pressa
Como quem sempre esteve ali
Abraçou sem dizer palavras
E o passado pôde existir
Era dama da noite em mulher
Flor que nasce na escuridão
A ensinar que força não grita
E poder também é compaixão
Falou de encanto e leveza
De olhar nos olhos e ver
Que toda alma carrega feridas
Mesmo quando finge não ter
Encantar era ler o silêncio
E fechar o que não servia mais
Abrir caminhos com palavra
E devolver a paz
Borrifou perfume no tempo
Limpando uma sorte e a dor
Eguns fugiram da luz suave
E a noite virou calor
Nem tudo que assusta é mal
Nem tudo que dói é castigo
Às vezes a perda é porta
E o invisível vira abrigo
O medo nasce da ignorância
Mas o amor ensina a ver
Que há mãos cuidando da alma
Mesmo quando a gente não crê
Chega suave e serena
Toma conta de mim
Venha leve, venha plena
Guia meu caminho assim
Saúdo a raiz
Saúdo a flor
Lua, perfume, mistério e amor
Saravá, pombagira da Lua grande
Saravá, dama da noite
Força que expande
O perfume da flor trouxe paz
A pombagira trouxe lição
O menino virou gratidão
E fé virou direção
Laroyê, dama da noite
Rainha do que não se vê
No escuro também há cuidado
E na noite, aprender a viver