Capataz veio de longe
Pra poder me avisar
Se mexer na água da bica
Coroné vai se zangar
A tu tenho respeito
À família amizade
Mas na seca da caatinga
Gado tem prioridade
Nessas horas que me alembro
Dos feitos de Lampião
Revoltou contra o sistema
Com pistola e mosquetão
Mas os tempos tão mudados
Como disse meu avô
Preta, esquenta esse cabelo
Pra esconder sangue nagô
Se os tempos tão mudados
Como disse meu avô
Preta, arma esse cabelo
Pra mostrar
Sangue nagô
Sangue forte e guerreiro
Me alembro dos Cariris
Me alembro dos Açus
Que habitavam por aqui
Mas chegaram os fazendeiros
Que a mata derrubaram
Que tomaram os olhos d'água
E os índios expulsaram
Nem indígena, nem quilombo
Nem a mata em pé ficou
Os donos da terra boa
Levam nome de doutor
Jogaram fora as arupembas
Já não tocam mais tambores
Mas eu sei de onde eu venho
Eu sei dos meus valores
Já cortaram meu cabelo
Já apertaram meu nariz
Mas eu não nego de onde eu venho
Eu sei de onde eu vim
Meu cabelo, meu nariz
De onde eu venho, de onde eu vim
Salve a doninha da mata
Salve o toque do tambor
Salve o canto dos escravos
Salve o gunga do meu vô