Eu me talhei na frente do espelho
Tentando achar quem restou
Cada corte um ensaio de rosto
Que o mundo nunca aprovou
Guardei pincéis debaixo da unha
Minha tela é minha própria dor
Não é arte se ninguém compra
Mas eu preciso ser autor
Não é vaidade, é sobrevivência
É implorar por existência
Cada traço é uma pergunta
Alguém me vê depois da tinta?
Sou retrato sob a pele
Que ninguém quis pendurar
Eu sou a tela e o pincel
A obra que ninguém vai comprar
Museu fechado pra mim sozinho
Curador do meu colapso
Cada cicatriz um catálogo
De tudo que eu não abraço
Convidei o mundo pra vernissage
Ninguém apareceu na entrada
Fiquei eu e o meu reflexo
Numa galeria abandonada
Não é vaidade, é sobrevivência
É a última forma de resistência
Se ninguém aplaude essa pintura
Eu aplaudo, na minha própria loucura
Sou retrato sob a pele
Que ninguém quis pendurar
Eu sou a tela e o pincel
A obra que ninguém vai comprar
Eu sou a obra
Se beleza é moeda, eu tô falida
Se atenção é oxigênio, eu tô sem ar
Vou seguir talhando esse retrato
Até não ter mais pele pra pintar
Sou retrato sob a pele
Que ninguém quis pendurar
Eu sou a tela e o pincel
A obra que ninguém vai comprar