Todo mundo chorando e eu só sinto o calor do Sol
Perguntam se eu tô bem, eu digo que sim, sem dor
Não é frieza, é que a dor deles não é a minha
Cada um carrega o luto do jeito que consegue e ainda assim julga a vizinha
Queriam que eu gritasse, que eu rasgasse a roupa em praça
Mas o roteiro do luto não é o meu, é o que a plateia traça
Se eu não choro no tempo certo, eu viro suspeito
Se eu não sinto o que mandam, eu não tenho direito
Não é que eu não sinta, é que eu sinto diferente
Não é que eu não ame, é que eu não minto pra gente
O mundo quer um roteiro, um script bem ensaiado
Eu só quero ser real, mesmo sendo condenado
Estranho no velório sincero demais pra essa festa
Estranho no velório eu não finjo o que resta
Não é que eu não sinta nada
É que eu não represento a plateia
Casaram, enterraram, e eu tratei tudo igual
Presente, ausente, na dor e no Natal
Isso não é vazio, isso é ver o mundo sem véu
Sem precisar fingir sentido pra tudo debaixo do céu
Me condenam por não chorar do jeito que esperavam
Me condenam por dizer a verdade quando mentiam
Mas eu não devo satisfação ao roteiro de ninguém
Meu silêncio também é verdade, mesmo que incomode alguém
Não é que eu não sinta, é que eu sinto diferente
Não é que eu não ame, é que eu não minto pra gente
O mundo quer um roteiro, um script bem ensaiado
Eu só quero ser real, mesmo sendo condenado
Estranho no velório sincero demais pra essa festa
Estranho no velório eu não finjo o que resta
Não é que eu não sinta nada
É que eu não represento a plateia
Não choro
Por encomenda
Não minto
Por educação
Vão me julgar pelo que eu não fingi sentir
Mas prefiro o desprezo de vocês a mentir pra mim
O Sol ainda esquenta mesmo depois do enterro
E eu não vou pedir desculpa por continuar vivo e inteiro
Estranho no velório sincero demais pra essa festa
Estranho no velório eu não finjo o que resta
Não é que eu não sinta nada
É que eu não represento a plateia
O Sol, ainda, esquenta